
Em O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marques, um dos livros memoráveis da literatura sul-americana, a jovem personagem Fermina Dazza, quando pedida em casamento por Florentino Ariza, seu grande amor, diz que aceita com uma única condição, para ela, fundamental: “Desde que você nunca me obrigue a comer berinjela”. O que detestava.
Ele concorda, apesar do casamento acabar não acontecendo e a grande paixão demorar 50 anos para, finalmente, se concretizar num ato carnal descrito com maestria pelo autor. Antes disso, Fermina se casa com o doutor Juvenal Urbino, a quem não amava, ainda que na certeza de que seria um marido correto e que jamais a obrigaria a comer o legume odiado, porque ele nada exigia de nada.
Anos depois, num jantar formal, sem perceber o que ingeria, comeu duas porções de purê de berinjela. E gostou. Custou saber que o havia comido e foi quando aprendeu uma grande lição nesta vida: a de não mais fechar questão sobre problemas menores diante das coisas realmente importantes que cruzam o caminho.
Nos anos verdes é comum o assunto acima, no setênio emocional que vai dos 21 aos 28 anos, estendendo-se muitas vezes aos 30 ou 35, pela análise da Antroposofia, que estuda o comportamento humano e a evolução moral através de períodos de sete em sete anos. Quando é tão comum a intransigência, o radicalismo, o colocar o carro adiante dos bois.
A confundir caprichos com desejos, a colocar, no alto da lista valores que nem são valores e criar problemas até mesmo em situações que só propõem resoluções e aberturas. Faz parte, sim, do ser jovem, ver-se como centro do mundo, agir dentro de um egocentrismo que só pode ser contido nos nãos recebidos pela vida, no bater a cabeça ao chutar o pau da barraca.
Demora para a gente entender, como Fermina, a lição da berinjela: de que o menor não pode se sobrepor ao maior, de que o relativo permanece relativo, ainda que nos ensine a possibilidade de seguir rumo ao absoluto, mesmo que este nunca seja alcançado. Aliás, o auge da mediocridade é se viver no relativo julgando ser aquilo o absoluto. Um erro estratégico no saber viver.
Um dia a gente aprende que tem que renunciar, abrir mão e passar por cima de tanta coisa pequena para se alcançar o que realmente importa, e conseguir ser feliz. Que não se pode ter tudo e que nada nem ninguém está à frente apenas para satisfazer aquelas nossas vontades que nem são vontades e sim, exigências que num momento se tornam símbolos da nossa precária auto-afirmação.
É muito bom quando não se precisa mais disso. (Baseado em texto de Luiz Alca de Sant’Anna)