04/05/2008 GMT -2
celu @ 19:53
Homem que é homem não chora. Eis uma afirmação que contém duas grandes e perigosas mentiras.
A primeira, a de que chorar é um ato para seres frágeis, que não sabem suportar as dificuldades que a vida apresenta; que o choro não combina com a força e a segurança representadas pela figura masculina, que isso está identificado com as mulheres.
A segunda mentira consiste em acreditar que isso é coisa do passado.
Os homens lideram os índices de suicídio. De acordo com o Ministério da Saúde, 80% dos suicidas são do sexo masculino. Eles são a maioria entre os viciados em álcool e drogas, bem como são os que lotam clínicas psiquiátricas por possuírem problemas mentais não-naturais, ou seja, aqueles que não nascem com debilidade mental e a adquirem no curso da vida.
Por que isso ocorre? Porque eles possuem racionalidade e competitividade mais acentuadas. Suas vidas são comumente estabelecidas num “jogo de perde e ganha”, do “tudo ou nada”, sendo que isso pode resultar no fim da própria vida. Essas características, juntamente com os preconceitos enraizados, fazem com que os relacionamentos dos homens com seus pares, com as mulheres e com o meio, sejam freqüentemente destrutivos.
É um grande equívoco atribuir à emancipação das mulheres a culpa pelo agravamento desse comportamento destrutivo. A falsa concepção do que seja “masculinidade” (que é um conceito estereotipado construído com idéias que, na maioria das vezes, não possuem nenhuma relação com a realidade) é introduzida no homem no início da formação de sua personalidade, principalmente na infância. Isto provavelmente independe de a mulher estar ocupando mais ou menos espaço no mercado de trabalho; de ela estar mais ou menos presente no lar como dona de casa.
A verdade é que, diante das dificuldades que a vida apresenta, as mulheres em geral sofrem, choram, desabafam com seus confidentes e descobrem que o problema não é tão grande assim; e os homens sofrem, guardam para si e “entram em parafuso”, entregando-se aos vícios que aniquilam com sua saúde ou se matam.
Um exemplo claro disso é a perda de emprego. As mulheres sofrem pela perda do posto de trabalho, lamentam com amigos ou amigas, choram e depois concluem que podem encontrar um emprego melhor ou que as coisas melhorarão. Já muitos homens entram em pânico ao descobrir que são dispensáveis, não falam com ninguém porque acham que essa história de ter confidentes é coisa de homossexual (um grande medo dos homens é ter questionada a sua sexualidade), concluem que são uma decepção como provedores ou como “machos”, e aí começa o martírio.
Para modificar esse quadro, muitos homens já perceberam que é preciso desenvolver seus aspectos emocionais; que abrir o coração não é ficar vulnerável; que ombro amigo é um excelente apoio para os momentos difíceis; que desabafar não diminuirá em nada sua masculinidade. Enfim, que eles podem chorar. Podem, também, procurar alguém para desabafar.
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